antes de tudo uma dica para caso algum estudante novato em faculdade venha parar aqui: jamais seja olho grande na hora de puxar matérias! Isso no final de período dá uma enrolação tremenda, por isso as postagens dos últimos dias estão tão inscontantes...e ainda tenho mais 2 semanas de provas! Salve-se quem puder!
[30º Dia] - 08/07/2010
E chegou o último dia! É estranho reler algumas passagens do blog e ver que, embora a ideia tenha sido escrever sobre meu primeiro mês, já estou no terceiro e ainda escrevendo. Comecei no início de maio e de lá pra cá, tirando os pontos facultativos, recessos, chuvas bíblicas, jogos do BraZil e aqueles dias que fiquei sem ir por ter torcido o pé...só no dia 08/07 é que cumpri 30 dias de estágio!
Na aula em si as coisas seguem de forma tranquila: muita agitação, alunos faltando, sumindo, outros aparecendo e se destacando, alguns do fundo da sala de 2 meses atrás são os primeiros da fila agora, outros persistem na resistência ao óbvio e vão levando as aulas com pouca ou nenhum seriedade.
O trígésimo dia em si não trouxe nada de especial e emblemático, foi um dia típico. Vou usar o espaço então para uma retrospectiva e alguns esclarecimentos.
[5 pontos fundamentais sobre o que aprendi]
Abaixo a síntese de minhas experiências com o estágio até aqui:
NINGUÉM TEM O CONTROLE DA SITUAÇÃO. O que nós temos é a sensação de controle ou, por experiência, as martimanhas para conseguir contornar algum acontecimento inesperado, mas nunca podemos entrar numa sala de aula, achando que do início ao fim tudo vai ocorrer como planejado. Não vai.
É preciso estudar muito, ler bastante e ser dinâmico, dinamismo é a palavra chave para qualquer um que queira se aventurar na área de educação. Ninguém gosta de uma aula parada e repetitiva, por mais esforço que você tenha desempenhado para elaborar alguma atividade, sempre tenha outras de reserva e várias cartas na manga, porque se não se pode prever o andamento de uma aula, ao menos pode-se preparar para os imprevistos. E acredite, os imprevistos são o que de mais previsível vai acontecer.
OPINIÃO DE ALUNO TEM QUE SER CONSIDERADA...COM RESSALVAS. Eu ainda sou um aluno e se tudo correr bem serei ainda por um bons anos, mesmo assim é preciso admitir que opinião de aluno NUNCA deve ser levada ao pé da letra. Aluno reclama sem saber o porquê, aluno gosta de abusar de sua posição de conforto para testar os limites do professor, até onde ele é permissivo, até onde ele sabe, até onde ele vai...
Digo isso porque nesse período já ouvi ofensas de alguns e os mesmos alunos depois vieram me pedir para ajudá-los, me deram bala, doce, refrigerante (!). Uma aluna que me chamou de chato, venho pedir auxílio em leitura num tempo vago que ela poderia muito bem ter ido embora ou ter ficado no pátio brincando, outra aluna que me chamou de mentiroso (porque não liberei mais cedo) recentemente venho falar comigo sobre a família, sobre o namorado e perguntar o que eu achava do comportamento dela, que ela sabia que estava falando muito, mas ia melhorar...
Um aluno que me chamou de folgado (porque pedi para guardar o celular que ele usava na sala), me cumprimentou e foi se sentar do meu lado num dia inteiro para que eu ensinasse-o a ler um livro, pois não estava conseguindo.
Na maioria das vezes, toda a agressividade das atitudes são formas mal resolvidas de se expressar. Não deve-se nunca ser sensível demais e considerar as opiniões negativas como o fim, nem muito arrogante para desconsiderar qualquer opinião. Não há fórmula pronta! É tentativa e acerto....sempre.
UM PROFESSOR NÃO PODE ABRAÇAR O MUNDO. É uma frase meio desconfortante, alguns pensarão "mas é claro que pode! um professor pode abraçar o mundo, mudar toda uma sociedade". Não, não pode. Um professor pode abraçar uma pessoa, mudar uma sala, mas não o mundo. Então quando o aluno traz problemas familiares, sociais, pessoas...deve-se ter paciência e saber até que ponto é possível ir e que a partir dali, o poder do professor fica restrito.
Por exemplo: se um aluno chega todo revoltado porque vive numa área de pobreza, enfrenta violência diariamente, tem pais ausentes...o que o professor pode fazer? Mudar a área onde ele vive? eliminar a violência da comunidade? Exigir comprometimento dos pais? O professor pode (e deve) conscientizar o aluno sobre seus direitos e deveres, sobre quais influência ele deve e quais não deve seguir e fazer com que ele assimile conhecimento, desenvolva o senso crítico e tenha ferramentas necessária para se tornar um cidadão pleno e um futuro profissional honesto e sério. Mas e se esse aluno não absorve nada disso, se ele some da escola, se envolve com a criminalidade...foi então o professor que errou? a sociedade que o discriminou? o governo (sempre ele) que não o amparou? Não! Foi aquele aluno que tendo o livre arbítrio como qualquer pessoa teve os dois caminhos a sua disposição e optou pelo mais fácil, que quase sempre é o errado.
A ESCOLHA PELO CAMINHO ERRADO NÃO É UNANIMIDADE.
O tópico anterior puxa esse aqui. O velho papo de que "não tive oportunidades suficientes" é bom pra declarações sentimentalistas de pobres coitados! Há exemplos em nossa sociedade de pessoas com estilos de vida idênticos, vindo de origem semelhante, com ausência familiar igual e que mesmo assim conseguiram se tornar cidadãos de bem, enquanto outras desistiram. Alguns professores marcam vidas, outros passam batidos...mas se o aluno não tiver vontade de mudar, de correr atrás, de ser alguém melhor, ninguém fara isso por ele. E o professor jamais deverá sentir culpa pelos erros na vida de sua turma, ele precisa ter a postura confiante de que está fazendo o melhor que pode, se isso vai atingir a todos ou não, é outra história.
CONFIANÇA NO TRABALHO QUE FAZ É A CHAVE PARA O SUCESSO!
Esse título parece início de capítulo de livro de autoajuda, mas a ideia é essa: ou você faz um trabalho decente ou não faz nada. E se não fizer nada não poderá reclamar depois das frustrações na carreira. Foi uma escolha sua!
No estágio conheci todo tipo de professor: os gentis, os grossos, os frustrados e os apaixonados pela profissão, os pessimistas, os otimistas...enfim, há todo tipo de gente dando aula.
Conheci professores, que não sei ao certo quais matérias dão, mas são gentis, tranquilos, estão sempre rindo, me cumprimentam sempre também, perguntam se estou gostando da escola, compartilham ideias, sugerem propostas de aula e mesmo os que não falam comigo, mantêm uma postura profissional, chegam tomam seu café, corrigem suas provas, são educados e se relacionam muito bem com os alunos.
Por serem boas pessoas isso se reflete nos seus trabalhos, logo, se sabem o que estão fazendo, qual a finalidade, porque e por quem estão ali, já é meio caminho andado para o sucesso.
Há também os professores estressados, reclamões, que estão sempre com dor de cabeça, esses são a minoria, mas ainda existem. Parece que em algum lugar no percusso perceberam que ensinar não era pra eles, mas ao invés de mudarem de profissão, se acomodaram e ficaram lá, entregues a monotonia, pedindo aos dias que passem e os deixem...são bons professores? Não sei.
E há a professora que dá aula na turma que estou, essa merece um parágrafo a parte. É sem dúvida uma das pessoas mais legais que conheci esse ano, simpática, humilde, me ajuda o tempo todo, às vezes ouvindo minhas asneiras, às vezes dividindo opiniões sobre a turma e estratégias para ajudá-los. Tem uma paciência gigante e embora a turma seja muito complicada de se trabalhar, nunca a vi com raiva, no máximo, ao final da aula, um suspiro e um comentário irônico. Uma das peças-chaves que motivou meu interesse pela educação depois que comecei a estagiar foi o que tenho visto diariamente aquela professora fazer. Um trabalho difícil, mas nunca um mau trabalho.
[Fecho aqui então a retrospectiva de meu aprendizado, postarei ainda essa semana as considerações finais e meus planos de retomar o blog ou modifica-lo....isso fica pra depois!]
Mostrando postagens com marcador alfabetização. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alfabetização. Mostrar todas as postagens
domingo, 11 de julho de 2010
Sobre o que aprendi
Marcadores:
alfabetização,
conclusão,
ensino,
estágio,
planejamento,
retrospectiva
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Reta Final - 2ª Parte
[29º Dia] 05/07/2010
Ontem a professora passou uma música do Toquinho no começo da aula para eles ouvirem, interpretarem e destacarem algumas palavras que ela pediu. Depois seguimos para a bendita apostila!
Essa apostila do Projeto Fórmula da Vitória é muito bem intencionada, mas o desenvolvimento é meio complicado. A primeira era de charadas e piadas e apresentava as letras, esta segunda é de poemas e apresenta textos curtos. Ok! Ótima ideia! Alfabetizar alunos com poesia, mas a seleção dos textos ficou devendo...há poemas simples e de fácil entendimento, mas outros que nem eu nem a professora conseguimos entender. Segue exemplos:
A música da Morte, a nebulosa
estranha, imensa, música sombria,
passa a tremer pela minh’alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa…
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia,
sobe, numa volúpia dolorosa…
Cruz e Souza
Música da morte?? Letes sinistro? Volúpia dolorosa?! Tem mais...
Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Cruz e Souza
Perceberam? A ideia nesse último era trabalhar o fonema "V". ok! Mas Volúpia dos violões? Vórtices? Vulcanizada?!?! E pra fechar...
Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
Antero de Quental
Até hoje to pra entender: o que é "sonhos sem fim seu preguiçoso rolo"?!?!!
Entenderam o que digo? Os poemas tem até sua beleza, e não é sobre isso que to discutindo aqui, a questão é que pra uma turma que até a poucos meses atrás não sabia o que era um "A" ou um "B" e já entrar em poemas de falam de vórtices, músicas mórbidas, volúpias e um preguiçoso rolo (juro! se alguém tiver entendido esse último, deixe um comentário me explicando, ok?)
E não para por ai, esses foram o que consegui copiar pra postar, mas há outros um tanto herméticos para uma turma de alfabetização.
Espero que esse projeto tenha uma ficha de sugestões, porque, como já disse, todo o discurso é muito bacana, mas fica um pouco fora do alcance da maioria e desperta a desatenção. Sorte que a professora tem um grande jogo de cintura perante essa poesia complexa. Ela saca um dicionário do armário, propõe uma interpretação com a turma e acaba aproveitando alguma coisa. Só fico pensando qual será a proposta da 3ª apostila...
Ontem a professora passou uma música do Toquinho no começo da aula para eles ouvirem, interpretarem e destacarem algumas palavras que ela pediu. Depois seguimos para a bendita apostila!
Essa apostila do Projeto Fórmula da Vitória é muito bem intencionada, mas o desenvolvimento é meio complicado. A primeira era de charadas e piadas e apresentava as letras, esta segunda é de poemas e apresenta textos curtos. Ok! Ótima ideia! Alfabetizar alunos com poesia, mas a seleção dos textos ficou devendo...há poemas simples e de fácil entendimento, mas outros que nem eu nem a professora conseguimos entender. Segue exemplos:
A música da Morte, a nebulosa
estranha, imensa, música sombria,
passa a tremer pela minh’alma e fria
gela, fica a tremer, maravilhosa…
Onda nervosa e atroz, onda nervosa,
letes sinistro e torvo da agonia,
recresce a lancinante sinfonia,
sobe, numa volúpia dolorosa…
Cruz e Souza
Música da morte?? Letes sinistro? Volúpia dolorosa?! Tem mais...
Vozes veladas, veludosas vozes,
volúpias dos violões, vozes veladas,
vagam nos velhos vórtices velozes
dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.
Cruz e Souza
Perceberam? A ideia nesse último era trabalhar o fonema "V". ok! Mas Volúpia dos violões? Vórtices? Vulcanizada?!?! E pra fechar...
Dê-te estrelas o céu, flores o solo,
Cantos e aroma o ar e sombra a palmar.
E quando surge a lua e o mar se acalma,
Sonhos sem fim seu preguiçoso rolo!
Antero de Quental
Até hoje to pra entender: o que é "sonhos sem fim seu preguiçoso rolo"?!?!!
Entenderam o que digo? Os poemas tem até sua beleza, e não é sobre isso que to discutindo aqui, a questão é que pra uma turma que até a poucos meses atrás não sabia o que era um "A" ou um "B" e já entrar em poemas de falam de vórtices, músicas mórbidas, volúpias e um preguiçoso rolo (juro! se alguém tiver entendido esse último, deixe um comentário me explicando, ok?)
E não para por ai, esses foram o que consegui copiar pra postar, mas há outros um tanto herméticos para uma turma de alfabetização.
Espero que esse projeto tenha uma ficha de sugestões, porque, como já disse, todo o discurso é muito bacana, mas fica um pouco fora do alcance da maioria e desperta a desatenção. Sorte que a professora tem um grande jogo de cintura perante essa poesia complexa. Ela saca um dicionário do armário, propõe uma interpretação com a turma e acaba aproveitando alguma coisa. Só fico pensando qual será a proposta da 3ª apostila...
Talvez numa turma como essa os poemas fizessem mais sucesso!
Marcadores:
alfabetização,
estágio,
poesia,
projeto fórmula da vitória
terça-feira, 6 de julho de 2010
Reta Final
[28º Dia] - 1/07/2010
Véspera de um no feriadão por causa da Copa! Infelizmente, como já disse antes, devido ao ritmo de final de período lá na faculdade, atualizar o blog tem sido bem difícil. Agora a pouco, por exemplo, terminei um trabalho para Fundbras I que terei que apresentar num seminário depois de amanhã. Sobre o dia 01/07 não me lembro com clareza o que se passou. Mais vou tentar fazer uma retrospectiva de fatos que passaram batidos nos últimos dias.
- Levei o cartaz com as bandeiras que tinha feito no 25º Dia, consegui colocá-lo num lugar de destaque no corredor perto da entrada, não sei se todos notaram, mas como tinha dito que levaria, então está lá!
- Alguns alunos estão matando aula demais, quando chego vejo sempre os mesmos rostos no pátio, uns 3, aviso para subirem porque a professora já deve ter começado, alguns ignoram, outro dizem "já to indo!" e não vão. A velha situação que já abordei aqui, se uma pessoal não ocorre atrás, não se pode correr por ela.
- Propus para a professora algumas ideias para otimizar a turma no segundo semestre. Como já estou bem por dentro de todo o ritmo dos alunos e como funciona as engrenagens daquela escola, disse que seria bom se em um determinado tempo do dia eu pegasse aqueles alunos com dificuldades básicas como reconhecer alfabeto (que por incrível coincidência são os mais bagunceiros!), levá-los para uma outra sala e repassar toda a matéria, como um reforço do reforço. Representar as letras e passar exercícios bem elementares para que não fiquem tão atrasados perante o resto da turma. A professora gostou! Vai poder dar mais atenção aos que estão progredindo, mas ainda precisam de orientação e os bagunceiros que não funcionam na turma, terão uma nova chance de aprender.
Isso seria só durante um tempo do dia, o resto eles ficariam junto com os outros. Noto que a maioria tá indo bem, mais da metade já está alfabetizada e daqui pro final do ano é só reforçar bastante a leitura e a escrita. Minha meta inicial era fazer um trabalho sério, contribuindo para o sucesso desse projeto da escola de ajuda a alunos com dificuldades em séries avançadas, posso também estar ajudando futuros alunos. Não sei ainda se essa turma existirá ano que vem, entretanto se entregarmos um resultado positivo no final, as chances são maiores de outros alunos usufruirem dessa oportunidade.
Véspera de um no feriadão por causa da Copa! Infelizmente, como já disse antes, devido ao ritmo de final de período lá na faculdade, atualizar o blog tem sido bem difícil. Agora a pouco, por exemplo, terminei um trabalho para Fundbras I que terei que apresentar num seminário depois de amanhã. Sobre o dia 01/07 não me lembro com clareza o que se passou. Mais vou tentar fazer uma retrospectiva de fatos que passaram batidos nos últimos dias.
- Levei o cartaz com as bandeiras que tinha feito no 25º Dia, consegui colocá-lo num lugar de destaque no corredor perto da entrada, não sei se todos notaram, mas como tinha dito que levaria, então está lá!
- Alguns alunos estão matando aula demais, quando chego vejo sempre os mesmos rostos no pátio, uns 3, aviso para subirem porque a professora já deve ter começado, alguns ignoram, outro dizem "já to indo!" e não vão. A velha situação que já abordei aqui, se uma pessoal não ocorre atrás, não se pode correr por ela.
- Propus para a professora algumas ideias para otimizar a turma no segundo semestre. Como já estou bem por dentro de todo o ritmo dos alunos e como funciona as engrenagens daquela escola, disse que seria bom se em um determinado tempo do dia eu pegasse aqueles alunos com dificuldades básicas como reconhecer alfabeto (que por incrível coincidência são os mais bagunceiros!), levá-los para uma outra sala e repassar toda a matéria, como um reforço do reforço. Representar as letras e passar exercícios bem elementares para que não fiquem tão atrasados perante o resto da turma. A professora gostou! Vai poder dar mais atenção aos que estão progredindo, mas ainda precisam de orientação e os bagunceiros que não funcionam na turma, terão uma nova chance de aprender.
Isso seria só durante um tempo do dia, o resto eles ficariam junto com os outros. Noto que a maioria tá indo bem, mais da metade já está alfabetizada e daqui pro final do ano é só reforçar bastante a leitura e a escrita. Minha meta inicial era fazer um trabalho sério, contribuindo para o sucesso desse projeto da escola de ajuda a alunos com dificuldades em séries avançadas, posso também estar ajudando futuros alunos. Não sei ainda se essa turma existirá ano que vem, entretanto se entregarmos um resultado positivo no final, as chances são maiores de outros alunos usufruirem dessa oportunidade.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Um Pouco de Pessimismo
[8º Dia]
Ontem não teve aula (as terças não tem português), mas pra não ficar de bobeira fui lá ver se poderia ser útil de alguma forma.
Fiquei como monitor com uns 5 alunos do 6º ano, ajudando-os em leitura e interpretação de texto, levei um do Millôr Fernandes chamado A Morte da Tartaruga, eles se revezaram, cada um lendo um parágrafo, enquanto o grupo todo interpretava o texto conforme ia sendo lido.As dificuldades foram semelhantes a que vejo na turma de alfabetização, embora todos devessem estar "alfabetizados", alguns tem dificuldade de ler dígrafos, outros tentam ler tudo rápido e comem palavras e o pior: há aqueles que sabem algo, ou acham que sabem, e ficam humilhando os que não sabem, esses além de arrogantes, atrapalham muito o processo de ensino.
Quanto mais convivo nesse meio, mas vejo a podridão que é o ensino público brasileiro, vejo pelo lado do ensino carioca, mas duvido que pelo Brasil a fora seja muito diferente, ontem por exemplo, peguei um aluno (entre aqueles 5) que não reconhecia um "M", um "A". Um aluno que chega ao 6º ano e não conhece uma vogal, ou não consegue ler uma sílaba simples não está semi-alfabetizado, nem tem dificuldades, não é analfabeto funcional, um aluno nessas condições está completamente analfabeto. E no 6º ano.
Como ele estava ficando constrangido por não conseguir ler o "MA", li junto e pedi para que ele sozinho interpreta-se aquela parte. Ele interpretou muito bem, entendeu o que se passava na história, o problema era que não sabia ler! Ao final do período que ficamos ali, esse aluno me perguntou se todos os dias teriamos aquele encontro, disse que provavelmente não, porque só as terças eu tenho o dia livre e ele me derrubou: "pena, nós deveriamos ter."
Dói bastante ver essas crianças já carentes, levando tanta porrada da vida e num ambiente como aquele, que deveria ser de inclusão e aperfeiçoamento intelectual, elas vão ficando cada vez mais pro lado, mais excluídas. Como um menino chega ao 6º ano sem saber ler? ou melhor, como um menino foi sendo aprovado por 6 anos seguidos e não perceberam que ele não dominava o mais básico do básico?
Aprovação automática? Professores sobrecarregados? Descaso da escola? Não sei! Sinto que os professores são muito bem intencionados e pelas conversas que ouço na sala deles, vejo que realmente se importam e discutem formas de ajudar (até mesmo salvar) alguns alunos, mas é dificil, tanto pelo que abordei no post anterior, sobre a questão familiar, quanto pela dificuldade de mapear 20, 25, às vezes 30 alunos no período de 1h por dia, se revezando em várias salas, em vários andares e em vários colégios. De quem é a culpa então?
O fato é que um aluno foi selecionado aleatoriamente numa turma para uma aula de reforço enquanto eu estava disponível e de cara já vi que ele precisa muito de ajuda e nem era pra estar naquela turma, quantos e quantos outros alunos daquela escola estão em situação parecida e quanto mais espalhados por ai vão chegar ao 9º ano, se formar e concluir o ensino fundamental sem os conhecimentos primários.
O sistema de educação é tão complexo que seria covardia apontar um único culpado por essa situação e minha intenção aqui nem é essa, mas o que alguns alunos da rede pública passam, seja no Rio, na Bahia ou no Amazonas é uma violência tão grande, mais tão grande contra seus direitos que não sei se sinto pena deles, raiva do sistema, impotência de não poder ajudar a todos como precisam ou tudo junto, mas que incomoda, incomoda...e muito!

fonte: IBGE. Resultados otimistas?
Assinar:
Postagens (Atom)
