[26º Dia] 24/06/2010 - "Tá acabaanoo! tá acabaano!!"
Cheguei um pouco atrasado (praticamente como todas as quartas) vi a professora, uma aluna e uma mulher na porta da sala de aula conversando. Passei em frente indo para o bebedouro, e também para verem que eu já tinha chegado, foi quando eu estava já no final do corredor a professora me chamou:
- Diego! Acho que seria bom você conversar com ela também!
- ?
- Essa é a mãe da fulana!
- !
Essa fulana é uma aluna bem encrenqueira que tinha sido suspensa das aulas por ser muito bagunceira e desbocada, disseram que ela só poderia assistir as aulas se estivesse na presença do responsável, isso foi a 2 semanas, responsável nenhum apareceu...até aquele momento.
Fiquei sabendo que a fulana mentiu pra mãe, dizendo que estava indo pra escola, quando na verdade ia para o morro do Pinto (morro próximo da Central do Brasil) matar aula com outro colega, que também está sumido.
A professora pediu minha opinião, disse então que seria curto e grosso, a mãe da menina me interrompeu então: "Ah, pode dizer! Ela é mal educada, folgada, respondona...." Então cortei-a : "Bom, fulana é uma menina muito inteligente, sabe da matéria, tá adiantada SÓ QUE às vezes é um pouco agitada demais, xinga muito e isso a atrapalha e a aula, mas se ela corrigir isso é MB (nota máxima) na certa. Lembrando que nesses casos, quando o responsável já sabe de todos os problemas do filho, ficar só criticando não ajuda, deve-se começar com elogios e ir apontando as dificuldades do aluno.
A mãe pediu várias desculpas por não ter aparecido antes, disse que realmente não sabia, que tinha mais 6 filhos (!), que trabalhava como faxineira, mas sempre priorizava a escola, que preferia faltar ao emprego que perder uma reunião de pais...deu pena daquela senhora! No final da conversa a professora voltou pra turma e eu fiquei mais uns minutos conversando com a responsável, disse que basicamente era isso, que não tinha muito mais o que dizer e a elogiei pelo interesse na vida estudantil da filha, que era de pais assim que a escola precisava, ou seja, sei que ela estava sabendo da gravidade da situação então pra não ficar uma situação muito desconfortável tentei ser direto, sem ser muito agressivo nas críticas.
Ai está uma situação complicada. Por um lado se culpa os professores pela falta de atenção dos alunos, pelo baixo rendimento, o professor é o bode expiatório de tudo de ruim que se passa na educação, o testa de ferro dos maus índices, das reprovações e evasões. Por outro lado julga-se os pais, por não darem educação aos filhos, por serem relapsos, não atenciosos, não passarem os valores básicos de ética e responsabilidade...E num caso dessses?
Quando os professores estão se esforçando ao máximo para ajudar aqueles alunos e vê-se uma mãe tão envergonhada pela situação ("ela sabe que tem que estudar! eu converso isso com ela, eu trabalho limpando mijo dos outros, é isso que ela quer da vida? Eu fico com vergonha de pegar os cadernos dela, porque só estudei até a 4ª série, mas sempre falo da importância dos estudos...não sabia que ela tava assim!") e que apesar de tudo tenta dar um mínimo para a filha, uma oportunidade que ela não teve.
Nunca culpa-se os alunos. Porque não estão plenos de suas responsabilidades? Por serem imaturos? Inocentes? Por precisarem de orientação? Então todos os atos são culpas de quem os cerca...os professores, os pais, as influências dos amigos (estes com a mesma idade), mas nunca é culpa do jovem, por quê?
Esse fato me pôs para pensar em como, às vezes, a culpa pelo fracasso de alguém é da própria pessoa e até que ponto esse fracasso pode e deve ser dividido pelos que a influenciam (ou influenciaram). Pessoas com estilos de vida idênticos podem nem sempre ter percursos semelhantes na vida, então fica claro, que seja aluno, cidadão, pais, irmãos, filhos, todos têm o livre arbítrio para ditar os rumos de sua vida, nem sempre as condições serão favoráveis e o esforço em alguns casos poderá sem bem maior que em outros, mas nunca poderá se culpar o destino ou "as circustâncias" pelo rumo de vida, no final das contas, a culpa pela vitória ou pelo fracasso é somente nossa.
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domingo, 27 de junho de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Ultrapassando a mesa
[25º Dia] - 23/06/2010
A professora precisou ir a uma reunião e não poderia chegar a tempo, pediu então se eu poderia ficar com eles. Fiquei. Já com todas as neuras, preocupações e inseguranças que as últimas experiências com os alunos tinham me colocado, mas dessa vez foi bem diferente.
Como a aula iria só até o recreio e depois eles seriam liberados, consegui trabalhar alguns exercícios com menos correria. Comecei retomando a parte de matemática que tinha parado quando fiquei sozinho lá da última vez: multiplicação. Segui para contas de x3 e x4. A turma estava vazia, uns 12, alguns que me viram chegando, e ficaram sabendo que a professora não viria, fugiram, com os que ficaram fui calmamente apresentando as contas e os conceitos das contas de multiplicação corretamente, embora isso já tenha sido dito antes, eles esquecem tudo muito rápido, alguns ainda sem confundem com multiplicação de x0 ou x1...foi preciso retomar muita coisa e incluir novidade. Enchi o quadro, todos copiaram em silêncio (!) e conforme as dúvidas iam aparecendo, ia de mesa em mesa ajudando, depois, quando todos já tinham feito, segui o esquema de correção, perguntando quem gostaria de ir no quadro resolver a questão, e como da última vez eles se empolgaram:
- Eu fico com a letra A !!! Eu com a J !!!! Eu quero a letra B !!! Não, não, a letra B é minha, eu pedi primeiro!! E daí?! Eu que vou fazer!! Euu! Zerim ou um então! Ganhei!! Eu faço! Você roubou!! Ahhh!
Depois da bagunça decidi que cada um iria ao quadro, faria a questão e a próxima, caso mais de um quisesse fazer, seria decidida no par ou ímpar. Que absurdo! Eles se empurrando pra serem os primeiros a fazer um dever...fenômenos de sala de aula.
Quando acertavam, eu colocava um sinal de visto e o nome de quem fez em cima da conta, dessa forma valorizava o acerto, o expondo pra turma, isso faz bem pra deles, de modo que lá pro final tinha aluno perguntando:
- Acertei professor??
- Acertou!
- Deixa que eu coloco meu nome na conta então!! (E tascava uma assinatura muito peculiar)
Depois da matemática fomos pro português, português disfarçado é claro. Nada de texto no quadro pra copiarem, nem apostila, não tenho segurança ainda com esses instrumentos, prefiro ir pro outro caminho. Dessa vez levei várias bandeiras em preto e branco de países que estão na copa de futebol, a primeira tarefa era cada um pintar a bandeira, dei preferência para bandeiras não tão populares (Costa do Marfim, República do Gana, Coréia do Norte, Argélia...) e escrevi de lápis qual era a cor de cada parte, então para pintarem corretamente teriam que ler corretamente! Depois deveriam escrever duas frases relacionadas a futebol ou ao país que receberam abaixo da pintura que fizeram. Dessa forma eles tiveram que exercitar o conhecimento que tinham. Ex:
- Professor!!! Aqui é que cor?
- Tá escrito! Qual a primeira letra?
- V !
- Então, tem alguma cor que começa com V?
- (pensando...) Verde?
- (alguém de fora do diálogo grita) Vermelho também!!
- Então, qual a segunda letra? E a terceira? Lê com calma uma letra de cada vez que você descobre a cor
- V...E...R....
- Até ai as duas cores são iguais...qual a próxima?
E assim ia, eles tentando ler e eu ajudando só o necessário, pra que desenvolvessem suas ferramentas de leitura de forma própria, sem apenas repetir.A maioria conseguiu, alguns, é bem verdade, apenas copiaram do colega, outros não quiseram e ficaram andando pela sala. Fiz o que pude. O saldo geral foi positivo!
Disse que depois montaria um cartaz com todas as bandeiras e frases que fizeram e colocaria em algum corredor da escola, ficaram vaidosos. Como são uma turma fora da grade regular, ou seja, deveriam estar no 6º ano, mas estão no primeiro andar sendo alfabetizados, qualquer trabalho que os mostre para o resto dos estudantes é importante.
Depois do intervalo foram liberados, pegaram suas carteirinhas e foram pra casa. Quando eu estava indo embora 2 alunas me pararam:
- Ahh! Eu não quero ir embora, professor! Passa dever pra gente!
- ?!
- Fulana, o diretor disse que vocês podem ir!
- O senhor precisa ir embora? Não pode ficar?
- .....(what?!?!).....Claro! Eu fico com vocês mais meia-hora, ok? (após o recreio eles tem mais 1h de aula antes de ir embora)
Esse diálogo é ainda mais inusitado porque dele participou também aquela aluna que me criticou semanas atrás. Lembra? Que disse que eu era chato, que preferia a professora, etc...
Então, pedi pra que escolhessem um livro que iríamos ler juntos, nisso apareceu um aluno que também quis ficar. Éramos 4.
Fiquei na sala então com os três sentados a minha volta e o livro no meio, sobre a mesa, com cada um lendo uma página. Era um livro simples, com no máximo 3 frases por página e muitas ilustrações, entretanto para eles que até o começo do ano eram analfabetos terminar aquela leitura era uma grande conquista.
Foram lendo, entre alguns tropeços e caras de frustração por não entenderem um "NH" ou "SS" , que prontamente explicava como se pronunciava, foram ficando mais confiantes lá pro meio já liam página inteira sem interrupção. Foi um dos momentos mais incríveis, tanto pela evolução deles, que to acompanhando de perto, quanto por aquela aluna raivosa que preferiu ficar ali lendo comigo! Passado uns 40 min. disse que precisava ir, eles se despediram e foram.
No primeiro post disse que seria uma vitória se pudesse subir na mesa sem ser encarado como maluco, naquela referência ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, então faltando 5 dias pra fechar minhas anotações aqui, digo que esse dia, aquele instante, com certeza, ultrapassou a mesa.
Alguns já estão se levantado, percebendo sua realidade e se esforçando pra melhorar. Até o final do ano espero ver todos de pé!
A professora precisou ir a uma reunião e não poderia chegar a tempo, pediu então se eu poderia ficar com eles. Fiquei. Já com todas as neuras, preocupações e inseguranças que as últimas experiências com os alunos tinham me colocado, mas dessa vez foi bem diferente.
Como a aula iria só até o recreio e depois eles seriam liberados, consegui trabalhar alguns exercícios com menos correria. Comecei retomando a parte de matemática que tinha parado quando fiquei sozinho lá da última vez: multiplicação. Segui para contas de x3 e x4. A turma estava vazia, uns 12, alguns que me viram chegando, e ficaram sabendo que a professora não viria, fugiram, com os que ficaram fui calmamente apresentando as contas e os conceitos das contas de multiplicação corretamente, embora isso já tenha sido dito antes, eles esquecem tudo muito rápido, alguns ainda sem confundem com multiplicação de x0 ou x1...foi preciso retomar muita coisa e incluir novidade. Enchi o quadro, todos copiaram em silêncio (!) e conforme as dúvidas iam aparecendo, ia de mesa em mesa ajudando, depois, quando todos já tinham feito, segui o esquema de correção, perguntando quem gostaria de ir no quadro resolver a questão, e como da última vez eles se empolgaram:
- Eu fico com a letra A !!! Eu com a J !!!! Eu quero a letra B !!! Não, não, a letra B é minha, eu pedi primeiro!! E daí?! Eu que vou fazer!! Euu! Zerim ou um então! Ganhei!! Eu faço! Você roubou!! Ahhh!
Depois da bagunça decidi que cada um iria ao quadro, faria a questão e a próxima, caso mais de um quisesse fazer, seria decidida no par ou ímpar. Que absurdo! Eles se empurrando pra serem os primeiros a fazer um dever...fenômenos de sala de aula.
Quando acertavam, eu colocava um sinal de visto e o nome de quem fez em cima da conta, dessa forma valorizava o acerto, o expondo pra turma, isso faz bem pra deles, de modo que lá pro final tinha aluno perguntando:
- Acertei professor??
- Acertou!
- Deixa que eu coloco meu nome na conta então!! (E tascava uma assinatura muito peculiar)
Depois da matemática fomos pro português, português disfarçado é claro. Nada de texto no quadro pra copiarem, nem apostila, não tenho segurança ainda com esses instrumentos, prefiro ir pro outro caminho. Dessa vez levei várias bandeiras em preto e branco de países que estão na copa de futebol, a primeira tarefa era cada um pintar a bandeira, dei preferência para bandeiras não tão populares (Costa do Marfim, República do Gana, Coréia do Norte, Argélia...) e escrevi de lápis qual era a cor de cada parte, então para pintarem corretamente teriam que ler corretamente! Depois deveriam escrever duas frases relacionadas a futebol ou ao país que receberam abaixo da pintura que fizeram. Dessa forma eles tiveram que exercitar o conhecimento que tinham. Ex:
- Professor!!! Aqui é que cor?
- Tá escrito! Qual a primeira letra?
- V !
- Então, tem alguma cor que começa com V?
- (pensando...) Verde?
- (alguém de fora do diálogo grita) Vermelho também!!
- Então, qual a segunda letra? E a terceira? Lê com calma uma letra de cada vez que você descobre a cor
- V...E...R....
- Até ai as duas cores são iguais...qual a próxima?
E assim ia, eles tentando ler e eu ajudando só o necessário, pra que desenvolvessem suas ferramentas de leitura de forma própria, sem apenas repetir.A maioria conseguiu, alguns, é bem verdade, apenas copiaram do colega, outros não quiseram e ficaram andando pela sala. Fiz o que pude. O saldo geral foi positivo!
Disse que depois montaria um cartaz com todas as bandeiras e frases que fizeram e colocaria em algum corredor da escola, ficaram vaidosos. Como são uma turma fora da grade regular, ou seja, deveriam estar no 6º ano, mas estão no primeiro andar sendo alfabetizados, qualquer trabalho que os mostre para o resto dos estudantes é importante.
Depois do intervalo foram liberados, pegaram suas carteirinhas e foram pra casa. Quando eu estava indo embora 2 alunas me pararam:
- Ahh! Eu não quero ir embora, professor! Passa dever pra gente!
- ?!
- Fulana, o diretor disse que vocês podem ir!
- O senhor precisa ir embora? Não pode ficar?
- .....(what?!?!).....Claro! Eu fico com vocês mais meia-hora, ok? (após o recreio eles tem mais 1h de aula antes de ir embora)
Esse diálogo é ainda mais inusitado porque dele participou também aquela aluna que me criticou semanas atrás. Lembra? Que disse que eu era chato, que preferia a professora, etc...
Então, pedi pra que escolhessem um livro que iríamos ler juntos, nisso apareceu um aluno que também quis ficar. Éramos 4.
Fiquei na sala então com os três sentados a minha volta e o livro no meio, sobre a mesa, com cada um lendo uma página. Era um livro simples, com no máximo 3 frases por página e muitas ilustrações, entretanto para eles que até o começo do ano eram analfabetos terminar aquela leitura era uma grande conquista.
Foram lendo, entre alguns tropeços e caras de frustração por não entenderem um "NH" ou "SS" , que prontamente explicava como se pronunciava, foram ficando mais confiantes lá pro meio já liam página inteira sem interrupção. Foi um dos momentos mais incríveis, tanto pela evolução deles, que to acompanhando de perto, quanto por aquela aluna raivosa que preferiu ficar ali lendo comigo! Passado uns 40 min. disse que precisava ir, eles se despediram e foram.
No primeiro post disse que seria uma vitória se pudesse subir na mesa sem ser encarado como maluco, naquela referência ao filme Sociedade dos Poetas Mortos, então faltando 5 dias pra fechar minhas anotações aqui, digo que esse dia, aquele instante, com certeza, ultrapassou a mesa.
Alguns já estão se levantado, percebendo sua realidade e se esforçando pra melhorar. Até o final do ano espero ver todos de pé!
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